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Vícios e Compulsões hoje e sempre


O desejo é incompleto por definição. A vontade nunca encontra sua realização plena, ainda que possa haver uma satisfação temporária. Depois, porém, ela retorna, retorna e retorna. Até cessar somente com a morte. Se o desejo é um ciclo de vontades que teimam em ressurgir, qual é a diferença entre o desejo saudável e o doentio? Eis aqui uma das perguntas mais enigmáticas da psicologia e da a filosofia. Mesmo porque, a ausência de desejo é tão problemática quanto seu excesso. E, ainda que, racionalmente, a resposta seja “o caminho do meio”, sabe-se que não é a razão que guia os desejos humanos. Ela só pode, eventualmente, guiar suas escolhas.

Talvez haja uma pista para se responder àquela pergunta. Ela poderia estar no fato de que os efeitos da busca pela realização do desejo reverberam, muitas vezes, no sujeito desses desejos. Aqueles efeitos podem funcionar como sinais de que a busca pela completude da vida pode ter consequências devastadoras, revelando a contraposição de forças que rege a existência humana, cujos polos foram chamados por Freud de pulsão de vida (Eros) e pulsão de morte (Thanatos). A linha entre o desejo saudável e o doentio poderia estar precisamente em seus efeitos destrutivos. Como o ser humano, todavia, desconhece a linha exata da moderação, de modo que o exagero faz parte de sua própria existência, o vício não se definiria simplesmente pela experimentação recorrente dos efeitos destrutivos do desejo. Afinal, se exagerar é humano, a pergunta correta a se fazer não é entre a moderação e o exagero, mas sim entre o abuso cotidiano e o vício. Qual seria o limiar entre o exagero humano vulgar e a compulsão que requer atenção clínica?

Os principais manuais de psicopatologia, como o CID-11 e o DSM-V-TR, trazem suas próprias descrições objetivas sobre comportamentos compulsivos. Mas ao se sair da lógica puramente descritiva desses manuais e se entrar numa reflexão mais subjetiva entre o exagero ordinário, de um lado, e o vício patológico, de outro, o que se revela é a própria dinâmica da mente humana. O marcador dessa diferença poderia ser simplesmente o ponto de declínio da vontade, à medida em que a necessidade é satisfeita. Por exemplo, se estou com sede e bebo um copo d’água, o próximo copo perderá progressivamente sua utilidade, até que se crie verdadeira repulsa à água. No entanto, o que esse exemplo ignora é uma distinção fundamental, ainda que nem sempre clara, entre “necessidade” e “desejo”. Beber água é uma necessidade. Sua utilidade decresce conforme uma pessoa mata sua sede. Mas e quando saímos da água e passamos para álcool, por exemplo? Aí o cenário transfigura-se completamente.

O ser humano tem necessidade d’água, pois ela realmente soluciona uma demanda orgânica que é a sede. Mas o ser humano tem necessidade de açúcar ou de álcool? E de ser rico, alto ou ter status? Sem a distinção entre necessidade e desejo torna-se quase impossível a compreensão dos vícios e compulsões que assolam a humanidade desde os tempos de Dionísio. Se, por um lado, a necessidade é objetiva, seja por causa do instinto, como a sede, ou por causas sociais, como usar roupas em público, o desejo pertence ao plano da subjetividade e do inconsciente. Ser rico, belo, famoso etc. são expectativas que certamente atravessam a história humana. Nenhuma delas, porém, pode ser considerada necessária, ainda que todos esses fins sejam altamente desejados. Diferente da necessidade, o desejo está sujeito a uma incompletude que sempre flerta com o vício. Mas já que o desejo é fruto do inconsciente, será possível que alguém tenha seus desejos governados pela razão? Se isso não for possível, o ser humano será apenas expectador de sua própria jornada.

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